
O Observatório dos Técnicos em Saúde da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz) lança nesta sexta-feira (19/6) o Boletim OTS Dados 3, A oferta de cursos técnicos no Eixo Tecnológico Ambiente e Saúde na Rede Federal de Educação.
A publicação apresenta resultados parciais da pesquisa Educação Profissional e Tecnológica em Saúde na Rede Federal: Perspectivas para a formação técnica para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS)” e revela que o Eixo Ambiente e Saúde detém apenas 8,9% dos cursos técnicos da Rede Federal, totalizando 254 ofertas de um universo de 2.845 cursos, e que dentro deste Eixo há disparidade significativa entre os Subeixos "Ambiente" e "Saúde" - enquanto o primeiro concentra 69% das matrículas em apenas 3 cursos; o Subeixo Saúde, com 15 cursos, responde por apenas 29,7% delas. Comprova-se, desta forma, a baixa representatividade dos cursos técnicos de Saúde na Rede Federal de Educação.
Para a coordenadora do Observatório, Carla Cabral Carneiro, a publicação do Boletim OTS Dados 3 cumpre o papel de, no atual contexto de expansão da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) no Brasil, publicizar a análise da oferta pública de cursos técnicos, com o objetivo de identificar de que forma os investimentos federais têm fortalecido os distintos setores socioeconômicos do país. "Nesse sentido, a baixa participação do subeixo saúde no total de matrículas da Rede Federal reafirma a histórica falta de priorização desse ente na formação de técnicos na área. Isso acende um alerta sobre o papel da Rede na qualificação profissional para o Sistema Único de Saúde (SUS) e na colaboração com as redes estaduais de ensino, visando atender a demandas territoriais que hoje não são atendidas", ressalta a coordenadora do OTS.
'Formação voltada ao desenvolvimento dos arranjos produtivos locais'
Coordenador da pesquisa Educação Profissional e Tecnológica em Saúde na Rede Federal, Anderson Boanafina avalia que os resultados parciais do trabalho, apresentados no novo Boletim OTS Dados, confirmam a hipótese de um descolamento entre a oferta de cursos técnicos em saúde na Rede Federal e as reais demandas dos sistemas de saúde. "Ainda prevalece, nas instituições, o perfil histórico de investimento na formação voltada ao desenvolvimento dos arranjos produtivos locais. Por outro lado, também observamos movimentos importantes, como o fato de as matrículas no Subeixo Saúde se concentrarem fortemente na modalidade subsequente (69,8%). Esse dado direciona nosso olhar para o contingente de egressos do ensino médio que buscam, na Rede Federal, uma qualificação na área da saúde, trazendo uma perspectiva inovadora que se soma ao estudo", avalia Boanafina.
Ainda de acordo com o coordenador da pesquisa, a distribuição regional da oferta de cursos e matrículas também desperta a atenção. "Há variação expressiva, que vai de cerca de 8% na Região Norte a quase 40% na Região Nordeste. Compreender as especificidades locais que influenciam essa dinâmica tornou-se um ponto-chave para a equipe [de pesquisadores]. Esses achados poderão subsidiar políticas de educação profissional em saúde, tanto em âmbito regional quanto nacional, comprometidas com a formação de trabalhadores qualificados para a consolidação de um sistema de saúde público, universal, integral e equânime", ressalta o pesquisador.
'Por que os cursos do Subeixo Saúde recebem proporcionalmente menos matrículas?'
Pesquisador do OTS, João Leal avalia que os dados apresentados nesta edição dialogam com os resultados encontrados pelo Boletim OTS Dados anterior, O Eixo Ambiente e Saúde nas redes pública e privada de Educação Profissional e Tecnológica no Brasil. "O OTS Dados 2 teve como foco a comparação entre as redes pública e privada de ensino e o modo como cada uma delas dava mais ou menos destaque ao Eixo Ambiente e Saúde. Os resultados mostraram que o setor privado investe fortemente nesse eixo, com 44,9% das matrículas, enquanto as redes públicas, em especial a Rede Federal, conferem baixa prioridade a essa formação, com apenas 6,91% das matrículas na Rede Federal. A publicação que lançamos hoje dá continuidade a essa análise, mas com a lupa voltada especificamente para a Rede Federal. O objetivo foi compreender melhor como se dá a oferta do Eixo Ambiente e Saúde nessa rede e, sobretudo, como ela se distribui internamente entre os dois Subeixos que compõem o eixo: Ambiente e Saúde", comenta.
De acordo com Leal, os resultados estabelecem o quadro de não priorização do Subeixo Saúde no interior da Rede Federal. "Quando os cursos do Eixo Ambiente e Saúde são separados nos dois Subeixos que o integram, Ambiente e Saúde, fica evidente que a oferta da Rede Federal se concentra na área ambiental. O Subeixo Ambiente reúne 69% das matrículas do eixo em apenas 3 cursos, com grande peso do curso técnico em Meio Ambiente, enquanto o Subeixo Saúde, mesmo com 15 cursos, responde por apenas 29,7% das matrículas. Esse resultado é instigante e levanta questões relevantes para a investigação. Por que os cursos do Subeixo Saúde recebem proporcionalmente menos matrículas? Por que uma rede de ensino tão importante para os rumos da formação técnica no país não prioriza os cursos da área da saúde, estratégicos para o SUS? São questões que a pesquisa pretende aprofundar nas próximas etapas".
Aproveite e confira também o Boletim OTS Dados 2 - O Eixo Ambiente e Saúde nas redes pública e privada de Educação Profissional e Tecnológica no Brasil, produto anterior da pesquisa Educação Profissional e Tecnológica em Saúde na Rede Federal: Perspectivas para a formação técnica para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) que já havia demonstrado elevado investimento da rede privada em cursos técnicos do Eixo Tecnológico Ambiente e Saúde, em contraste com a baixa representatividade dos mesmos nas redes públicas de ensino, especialmente a Rede Federal.
Jornalista: Paulo Schueler. Imagem: Arte Vander Borges a partir de fotografia de Peter Ilicciev / Fiocruz Imagens