
Neste 11 de fevereiro o Observatório dos Técnicos em Saúde (OTS) se soma às comemorações do Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, data instituída na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) apenas no recente ano de 2015, com o objetivo de conscientizar de que a ciência e a igualdade de gênero precisam andar lado a lado.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO), a ciência, tecnologia, engenharia e matemática são fundamentais para o desenvolvimento sustentável, mas mulheres e meninas continuam a enfrentar barreiras que limitam sua participação nessas áreas – desde estereótipos de gênero até o acesso limitado à educação de qualidade. Atualmente, as mulheres representam apenas 35% dos graduados na área.
Buscando dar visibilidade ao trabalho das mulheres cientistas e incentivar jovens estudantes a seguirem carreiras científicas, a data integra o calendário de eventos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desde 2019, e, até o momento, já reuniu mais de 1,3 mil estudantes de diversos níveis de ensino.
Neste ano está acontecendo a Imersão no Verão 2026, com atividades diárias, das 8h às 17h, nas unidades da Fiocruz no Rio de Janeiro. Puderam se inscrever estudantes que se identificassem com o gênero feminino, residentes no Rio de Janeiro e matriculadas em escolas públicas. A programação coloca jovens estudantes no centro da ação e promove rodas de conversa com pesquisadoras, visitas técnicas a laboratórios, dinâmicas de grupo e atividades culturais.
A relação com as trabalhadoras técnicas
As desigualdades de gênero entre os profissionais técnicos em saúde persistem mesmo em uma área majoritariamente marcada pela presença feminina. Embora as mulheres sejam maioria em diversas formações técnicas da saúde, ainda enfrentam barreiras estruturais que impactam sua valorização, remuneração e possibilidades de ascensão profissional.
Uma das principais expressões dessa desigualdade é a segregação ocupacional. Áreas associadas ao cuidado direto, historicamente vinculadas ao papel social feminino, concentram maior número de mulheres e, muitas vezes, apresentam menor valorização salarial. Por outro lado, setores técnicos ligados à tecnologia e a equipamentos, costumam ter maior presença masculina e, em alguns contextos, melhor remuneração e reconhecimento.
A desigualdade também se manifesta nas diferenças salariais e no acesso a cargos de liderança. Mesmo quando exercem funções semelhantes, mulheres podem enfrentar menores oportunidades de progressão na carreira. Cargos de coordenação, supervisão e gestão em serviços de saúde nem sempre refletem a maioria feminina da base técnica, que limita o avanço profissional das mulheres.
Além disso, muitas profissionais técnicas acumulam dupla ou tripla jornada, conciliando o trabalho formal com responsabilidades domésticas e de cuidado com filhos ou familiares. Essa sobrecarga impacta diretamente sua saúde física e mental, além de restringir o tempo disponível para qualificação e crescimento profissional.
Essa data não apenas reconhece a importância da participação feminina na produção do conhecimento científico, mas também chama atenção para as barreiras estruturais que ainda limitam o pleno acesso, permanência e valorização das mulheres nos campos da ciência e da tecnologia, realidade que também atravessa o trabalho técnico em saúde.
As profissões técnicas da área da saúde são fundamentadas em saberes científicos, como biologia, química, microbiologia, epidemiologia e saúde pública. Técnicas aplicam diariamente conhecimentos científicos na assistência, no diagnóstico, na prevenção e no controle de doenças. No entanto, apesar de serem protagonistas na aplicação prática da ciência, muitas vezes não são reconhecidas como parte do campo científico, o que contribui para a invisibilização.
A formação técnica pode ser uma porta de entrada para trajetórias científicas, ampliando a participação feminina na pesquisa, na inovação e na produção de conhecimento. Valorizar as profissionais técnicas é, portanto, também reconhecer que a ciência não está apenas nos laboratórios de pesquisa acadêmica, mas nos serviços de saúde, no Sistema Único de Saúde (SUS), nas unidades básicas, nos hospitais.
Texto: Nayara Oliveira*. Imagem: Tânia Rêgo / Agência Brasil.
*Estagiária, sob supervisão de Paulo Schueler.