14/4 - Doença de Chagas... e de Chico Trombone

Neste 14 de abril, comemora-se 117 anos da descoberta da doença de Chagas, e também o sétimo ano de celebração da data como Dia Mundial da Doença de Chagas, após decisão da 72ª Assembleia Mundial da Saúde, ocorrida em 2019.

A efeméride lembra a data que, no ano de 1909, o pesquisador Carlos Chagas identificou o parasito Trypanosoma cruzi, causador da infecção, em uma paciente: a menina Berenice, de 2 anos, moradora da cidade de Lassance, em Minas Gerais.

Trata-se, mais de um século depois, da primeira e única vez em que um cientista descreveu sozinho o ciclo completo de uma doença infecciosa, da identificação do agente causador (o Trypanosoma cruzi), de seu vetor (inseto barbeiro), dos hospedeiros (humanos e animais), passando pelo ciclo de transmissão e as manifestações clínicas, sejam as agudas ou as crônicas.

Fonte de orgulho secular da medicina brasileira, este trabalho pioneiro fez com que a doença recebesse o nome de Chagas – trazendo-nos à memória o poema Perguntas de um operário que lê, de Bertolt Brecht, da qual extraímos os seguintes versos:

 

O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?”

 

Comprometido com a promoção da visibilidade da importância do trabalho dos técnicos em saúde, o Observatório dos Técnicos em Saúde (OTS) aproveita a oportunidade para compartilhar a história de Francisco José Rodrigues Gomes, o “Chico Trombone”, que se mistura com o processo de conhecimento da doença de Chagas no Brasil.

A trajetória de Chico Trombone é retratada pela pesquisadora do OTS Renata Reis em sua tese de Doutorado ‘A ‘Grande Família’ do Instituto Oswaldo Cruz: a contribuição dos trabalhadores auxiliares dos cientistas no início do século XX’.

A tese descreve que a captura de uma gambá levou o então menino Chico a entrar na história da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), da qual viria a se tornar um dos mais conhecidos auxiliares de laboratório.
Conta Reis:

“O tio de Francisco era mateiro e acompanhava o Dr. Chagas em suas idas e vindas para Lassance... O menino começou a trabalhar com o tio nos acampamentos que faziam pela região a procura de doentes, animais e barbeiros. Enquanto os homens saíam para ‘bater cafua’, Francisco ficava cuidando das panelas, da comida. Em uma das noites, foi incomodado por uma gambá que não o deixou dormir. No dia seguinte conseguiu capturar o animal no mesmo instante em que o Dr. Chagas chegava ao acampamento. O médico pegou a gambá e imediatamente colheu e examinou seu sangue, constatando a presença de Trypanossoma cruzi. A partir deste acontecimento, o Dr. Chagas concordou que Francisco permanecesse em Lassance.

Francisco passou a viver e trabalhar na estação e aprendeu com seu tio a caçar pequenos animais, fazer armadilhas e construir chiqueiros. A convivência aproximou a criança e o cientista, que mandou vir do Rio de Janeiro algumas cartilhas para ensinar o menino a ler e a escrever.

Francisco Gomes viveu em Lassance durante cinco anos e conviveu com muitos pesquisadores diferentes do Instituto que iam frequentemente até a estação colaborar nas pesquisas, como Emanuel Dias, Magarino Torres, Eurico Vilela, Evandro Chagas e Nogueira Penido”.

Chico Trombone, assim chamado já em sua fase adulta por gostar de música e participar de uma orquestra tocando trombone, mudou-se para o Rio de Janeiro e fixou-se em Manguinhos aos 12 anos, em 1923, e morou dentro do Instituto Oswaldo Cruz, no sótão do prédio da Cavalariça. De acordo com a pesquisadora do OTS, “no entanto, seus assentamentos funcionais iniciam em 1930, contratado como servente de cocheiras. Nesta época, trabalhou com sangrias de cavalo e produção de soro”, embora desde sua chegada tenha atuado como auxiliar de laboratório de Carlos Chagas até a morte do pesquisador, em 1934.

A morte de Chagas, aliás, fez com que Chico Trombone fosse obrigado a Faculdade de Medicina, que havia iniciado, e passou a trabalhar com Joaquim Venâncio, a quem chamava de “guru” e que hoje dá nome à Escola Politécnica de Saúde, uma das unidades técnico-científicas da Fiocruz.

Em conversa com o OTS, Renata Reis avalia que a invisibilização dos trabalhadores técnicos em Saúde em conquistas como a da doença de Chagas é resultado de diversos fatores. “Tenho tentado me debruçar sobre o nosso imaginário coletivo, que ainda costuma a associar ‘cientista’ a um determinado perfil, que tem gênero, tem raça e classe muito bem definidos, geralmente homens brancos, de uma determinada classe social cuja pertença permitiu que tivessem acesso à educação formal, que pudessem aprofundar e aperfeiçoar seus conhecimentos, através da pós-graduação. E aí a gente deixa de considerar toda uma rede, importante, de outras pessoas, outros corpos, gêneros e saberes, que acabam ficando invisibilizados, inclusive na história, naquelas memórias escolhidas para serem preservadas”, avalia.

Segundo a pesquisadora, a observação mais atenta para o cotidiano do fazer científico permite “perceber a diversidade imensa de pessoas de gênero, raça e origem social que não se encaixa nessa representação, como os técnicos e técnicas de laboratório que foram e continuam sendo fundamentais nesses processos”.

Por isso a importância, segundo Reis, de usar o exemplo da doença de Chagas. “Além do Carlos Chagas, quem mais estava junto participando desse processo e colaborando a seu modo, com seus saberes específicos, mas não menos importantes? Há um monte de gente envolvida nessa descoberta, como o Francisco Gomes, o Altino Benfica, o Attilio Borriello, todos técnicos de laboratório dos primeiros 30 anos do antigo IOC”, atesta.

Para Reis, outras conquistas históricas precisam ser reescritas para incorporar a participação dos técnicos em saúde. “São os casos de Antônio Maria Filho e Eloy Inácio Rosas nas pesquisas experimentais para produção da vacina anticarbunculosa, que foi muito importante para a Fiocruz nesse período, pela possibilidade de gerar rendas próprias com a venda da vacina para até mesmo outros países. As pesquisas sobre tuberculose no Instituto Oswaldo Cruz também contavam com a participação de José Barbosa da Cunha, técnico de laboratório que trabalhava com o Cardoso Fontes. Já as pesquisas sobre o tifo exantemático tiveram as participações de Atílio Borriello, técnico de laboratório; e de José Cunha, este último também ativo nas pesquisas sobre leishmaniose, participando inclusive da organização do laboratório de leishmaniose em Belém do Pará. O Mário Ventel foi outro técnico de laboratório super importante, que participou de todas as pesquisas de helmintologia no IOC, além do próprio Joaquim Venâncio, que foi uma figura fundamental para o campo da zoologia médica, principalmente quando a gente pensa nos anfíbios e répteis”, cita a pesquisadora.

Homenagem no IOC

No dia 12 de fevereiro de 2026 ocorreu a celebração dos 45 anos dos cursos técnicos do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), quando sete técnicos e técnicas foram homenageados com a Medalha de Mérito Técnico em Ciência e Tecnologia Chico Trombone – Francisco Gomes, que reconhece técnicos do IOC que desempenham papel essencial no desenvolvimento da pesquisa científica, da formação de alunos e da construção de uma cultura institucional ética e colaborativa.

Técnico do Instituto Oswaldo Cruz, Roberson Girão relatou em conversa com o OTS que a ideia da medalha surgiu dos preparativos para os 125 anos da instituição, quando a representação dos trabalhadores técnicos no Conselho Deliberativo do IOC sugeriu o estabelecimento de uma honraria que homenageasse os técnicos que dedicaram décadas de trabalho à pesquisa e à saúde pública.

“Buscamos então um nome para a medalha, que pudesse representar esse tipo de perfil. Me lembrei do lindo trabalho feito na fachada da EPSJV pelo Negro Muro e do resgate histórico sobre os técnicos da Fiocruz do início do século XX, coordenado pela Renata Reis. Ao ler as biografias dos técnicos, nos deparamos com a história do Francisco, que teve seu destino cruzado ainda menino com a Fiocruz. Foi levado aos 7 anos por seu tio Altino para a campanha para a Doença de Chagas em Lassance em 1918. Chico foi um homem negro de origem pobre que dedicou décadas de sua vida à Fiocruz, à pesquisa, ao ensino e à saúde pública. Sua história transpassa a dedicação, a resiliência e a resistência às diferentes formas de opressão. Mesmo não tendo passado por um ensino técnico formal, sua formação foi politécnica e omnilateral, juntando ciência e cultura. Sua história deve ser lembrada para inspirar as futuras gerações de técnicos  e técnicas que contribuem cotidianamente para a saúde e a ciência brasileira. A síntese desse símbolo na forma de medalha valoriza aquelas e aqueles que também trabalham cotidianamente por esse bem comum, e mesmo trabalhando nos bastidores, merecem ser vistos e valorizados”, ressalta Girão.

De acordo com o técnico, a participação de sua categoria para a saúde pública é “imensa”. “São os agentes comunitários de saúde, os agentes de combate a endemias, os técnicos e auxiliares de enfermagem, os técnicos de laboratório, entre outras profissões, e compõem mais de metade dessa força de trabalho. Ainda enfrentam as maiores adversidades, com cargas horárias excessivas, baixos salários, assédio, e foram os principais profissionais da linha de frente durante a pandemia da Covid-19. No contexto da Fiocruz, os cargos de nível médio são os mais afetados pela falta de concursos na instituição”, relata.

Para Girão, “a valorização dos trabalhadores  e trabalhadoras de nível médio-técnico se faz com o conhecimento sobre a história de sua atuação e de suas contribuições para a instituição na qual trabalham, personalidades como a de Francisco Gomes – nosso Chico Trombone –, mas também pelo reconhecimento nas rotinas de seus locais de trabalho, no combate às diferentes formas de assédio, na necessidade de trabalho digno, na renovação e na reoxigenação dos seus quadros e da sua força de trabalho a partir da convocação em novos concursos para o nível intermediário à valorização de sua remuneração,  no incentivo a continuidade de sua capacitação nos diferentes níveis de ensino, e que isso possa se refletir na sua remuneração, quebrando a lógica dual do trabalho manual e do trabalho intelectual”, defende.
 

Jornalista: Paulo Schueler. Foto: Acervo Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. Sem data. Autor: J.Pinto. “Acampamento em Lassance [?] com Raul de Avelar e J. Pinto”. [Imagem editada da fotografia original]. Título original da foto: “Acampamento não identificado”. BR RJCOC 02-10-20-35-012-032. De acordo com a tese de Renata Reis, Chico Trombone é o menino no centro da foto.